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A noiva

Publicado: 15/08/2009 em Conto
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Hoje penso como podia ser aquilo, quem foi o maluco que permitiu, mas o fato é que a escola dividia o muro com o principal cemitério público da cidade, não com um daqueles bonitos cemitérios particulares, com jazigos permanentes de mármore e imponentes mausoléus que os ricos constroem para demonstrar sua grandeza mesmo após baterem as botas.

Era um daqueles cemitérios construídos morro acima, com covas abertas diretamente na terra vermelha, cruzes de madeira identificando que havia ali alguém sepultado, árvores decadentes de longos galhos retorcidos, gavetas entreabertas que jurava eu poder ver com meus olhos de criança os restos de algum finado defunto.

Era um espaço que servia a dois objetivos claros, para os mais velhos era a rota de fuga para cabular aulas, que iria perseguir marmanjos cemitério adentro? Mas para os pequeninos era uma fonte inesgotável de histórias macabras que causavam calafrios a cada nova geração que naquele colégio adentrava.

A mais curiosa era da mulher de algodão, diziam os mais velhos, ano após ano, que a noiva, de pele branca como a neve fora ali enterrada em sono profundo mas ainda viva por um noivo não tão amoroso, ao cair da escura noite ela consegue se levantar de seu jazigo ainda com todos curativos de esparadrapo e algodão com que os mortos eram tratados e se dá conta do ocorrido, caindo em uma tristeza imensa.

Tamanha tristeza que a já a esta altura decadente e desfigurada noiva (ninguém jamais explicou o porquê do decadente e desfigurada), decidiu se retirar em sua vergonha para um dos banheiros da escola ao lado e desde então de vestido branco e muito algodão por todos os lados afasta quem ali se atreve a entrar.

Hoje sei que é uma história fajuta, cheia de buracos e inconsistências, mas em uma das peças que a mente prega reside um dos meus piores pesadelos, daqueles que teimam em se repetir vez por outra em noites mal dormidas, onde me vejo novamente naqueles corredores indo em direção ao nefasto banheiro, onde dizem estar até hoje a noiva amargurada… Credo.

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