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Qual a magia do Carnaval? A alegria ébria? A libertinagem coletiva? O despudor sexual? Talvez seja alguma dessa coisas, mas nesse carnaval acho que descobri que a verdadeira magia da folia está em uma frase que todos repetimos incesantemente mas na verdade poucas vezes acreditamos: Tudo é Possível.

E na verdade não acreditamos tanto assim nesta frase. Amarras, costumes e tradições, preguiça e medos nos fazem contradizer nossa declarada crença a todo momento, muitas vezes de forma inconsciente mas o fato é que não exploramos toda a gama de possibilidades que se descortinam à nossa frente em todo momento.

E o que faz o Carnaval? Ele liberta mesmo que seja por alguns dias das amarras dos medos e das inibições. Ok que muitos aproveitam somente para cair na mais deslavada e incontida esbórnia – total direito – mas de forma geral é um periodo em que  a cabeça pensa de forma diferente, mais leve, um periodo em que o “copo está sempre cheio“, literal e metaforicamente falando.

A magia destes dias está na liberdade, liberdade de voar sem lembrar do chão, liberdade de dizer sem medo da resposta, liberdade de sentir sem culpas ou desculpas, pois nestes dias realmente tudo é possível, somente porque nos permitimos que seja possível. A grande tarefa seria fazer nosso mundo funcionar assim nos outros 360 dias.

Nem me lembrava como era ter um Carnaval tão bom como este último e demorei para realizar em palavras tamanha satisfação, dificuldae de por em palavras o que já sabia desde a terça feira, após a ultima cerveja e uma despedida, caminhando de bermuda, chinelo de dedo, bem devagar para o leito de descanso, procurando explicações racionais para o que a razão não consegue explicar, afinal no Carnaval a gente costuma deixar a razão de fora das malas.

Mape Passou o carnaval na cidade de Cabo Frio – RJ, e guarda ótimas recordações destes dias.

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Dia desses estava vendo um desenho animado qualquer, desses que eu via quando criança, e rindo uma risada gostosa, boba e sem sentido, daquelas que a gente dá quando se lembra de algo ou de um tempo muito bom.

Lembrei de meus antigos brinquedos, o cachorro xereta, o carrinho bate bumbo, aquele urso marrom sem nome, meus conjutos Lego, bonequinhos de heróis (quem chama de figuras de ação?), meus carros de controle remoto. A maioria se perdeu com tempo e o impulso infantil de destruir, mas ainda restam alguns em suas caixas, guardados, esperando que em um impulso eu os retire do alto do armário e lhes dê alguns minutos de vida.

Talvez aconteça, mas não acredito, a vida não permite tais retornos, somente os pensamentos podem fazer que aqueles bonequinhos lutem suas batalhas, os carrinhos corram velozes e a cidade de Lego tenha sua rotina inalterada dia após dia. Então eles continuam em dois lugares, em meus sonhos e pensamentos e naquelas caixas no alto do armário onde minhas mãos já não alcançam.

Difícil eleger uma música favorita do Skank, mas provavelmente seria essa.

Em paz eu digo que eu sou
O antigo do que vai adiante
Sem mais eu fico onde estou
Prefiro continuar distante…

Se relacionar com pessoas é algo complicado, se a pessoa em questão for um cliente então a complicação é elevada em N potências, quando existe um impasse entre o que podemos fazer e o que o cliente solicita então é confusão na certa.

Certo dia estava um colega atendendo uma pessoa claramente mal instruída por um desses advogados loucos por qualquer tipo de causa perdida, apesar de toda a sorte de explicações e demonstrações a figura sempre vinha com a mesma resposta:

– Isso não me satisfaz…

Resposta típica de pessoa que conversou 5 minutos com advogado mequetrefe doido para pegar mais uma causa caça-níquel, o fato é que uma hora acabam os argumentos e a paciência, nesta hora o que era um atendimento pode descambar para a discussão aí a instrução é terminar e deixar o cliente livre para agir de acordo com suas próprias idéias, só que sempre tem aquele que termina com a seguinte frase:

– Qual o seu nome?

Alerta ligado, na maioria dos casos quando se está embasado e certo do que se diz não é problema, mesmo assim fica aquela incômoda pulga atrás da orelha e tal é nesta hora que o Manoel, já de cabeça cheia sempre prefere ser chamado por José.

– Tenho o mesmo nome do pai de Jesus.

A resposta vem de bate pronto:

– Seu nome é Deus?

Imaginem quando o chefe receber o relatório dizendo que Deus maltratou um cliente…

Deus. Mas pode me chamar de Senhor.

Recentemente fui perguntado sobre o tipo de amor que gosto, curiosamente no outro lado da rua tinha um vira lata, este texto é inspirado na minha resposta.

Gosto de cachorro, é algo pessoal; tem gente que gosta de gato, que gosta de peixe, que gosta de tartaruga, que gosta de cobra. Cada um na sua… mas eu gosto de cachorro, gosto da cara amistosa, do focinho molhado e das orelhas ora caídas ora alertas.

Gosto de todos, de uns mais de outros menos, me incomodam os muito abobados, fico de pé atrás com os muito espertos, mas gosto sobretudo de vira-latas, daqueles bem bonachões com cara de melhor amigo, daqueles que sabem seu lugar mas mesmo assim conquistam novos territórios dia após dia, indo cada vez mais distante mas sempre sabendo para onde voltar.

Gosto do vira-latas que vive com o simples, mas que sabe apreciar como ninguém um filet, que sobrevive sem esmoecer aos dias difíceis mas que sem rancor se aproveita da bonança. Gosto do vira-latas que entre o milionário e o mendingo não faz distinção, segue o sentimento verdadeiro sem se importar com valores.

Gosto do vira-latas que cura suas feridas sem grandes alardes, que não se curva agonizante á menor das dores, que levanta e vai atrás porque assim a vida o ensinou. Gosto do vira-latas que manca quando lhe é permitido mas que reúne forças para correr quando lhe é necessário. Gosto do vira-latas que se deita pacientemente enquanto o mundo corre à sua volta e que se levanta com sagacidade quando a oportunidade à sua porta bate.

Gosto mesmo do vira-latas, aquele que é eternamente subestimado, mas é sem dúvida o mais valoroso, aquele faz muito do pouco e do muito uma festa. Gosto do vira-latas que valoriza cada refeição porque conhece a vazio da ausência, que ama o menor dos afagos porque conhece o poder da agressão. Gosto do vira-latas que é fiel à sua própria gratidão e que dela não se afasta, que não se queixa exageradamente dos percalços, mas que celebra com alegria cada momento de felicidade.

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Claro que não disse isso, a pessoa não entenderia ou provavelmente iria me olhar com uma cara de interrogação que me forçaria a nunca mais falar algo do tipo, mas as vezes é bom usar palavras complicadas.

E para quem gosta Orkupet.

Ser criança é poder cair e se levantar, com um ralado no joelho ou uma lágrima no canto dos olhos, mas sempre com a vontade de tentar de novo, é não se importar com o olhar de quem viu a queda, pois acredita ser um olhar de ternura e cuidado. É tentar de novo mais rápido e com mais confiança ainda que a experiência anterior seja negativa. É não acreditar no que dizem antes de conferir por si mesmo, enfiar o dedo na tomada para ver se dá choque e fazer se de novo para finalmente crer naquela força invisível.

É ir do riso inexplicável ao choro sem cabimento em questão de segundos, e depois não ligar a mínima para o que possam pensar, na verdade é não pensar além dos próximos minutos, pois qualquer coisa além disso, está muito distante para poder se preocupar. É quere algo sem precisar de motivo simplesmente por querer e pronto, fazer pirraça e bater o pé, gritar e se jogar no chão sem ser chamado maluco. É ser maluco sem problema algum.

Devíamos todos ser criança, ao menos uns minutos por dia.

A noiva

Publicado: 15/08/2009 em Conto
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Hoje penso como podia ser aquilo, quem foi o maluco que permitiu, mas o fato é que a escola dividia o muro com o principal cemitério público da cidade, não com um daqueles bonitos cemitérios particulares, com jazigos permanentes de mármore e imponentes mausoléus que os ricos constroem para demonstrar sua grandeza mesmo após baterem as botas.

Era um daqueles cemitérios construídos morro acima, com covas abertas diretamente na terra vermelha, cruzes de madeira identificando que havia ali alguém sepultado, árvores decadentes de longos galhos retorcidos, gavetas entreabertas que jurava eu poder ver com meus olhos de criança os restos de algum finado defunto.

Era um espaço que servia a dois objetivos claros, para os mais velhos era a rota de fuga para cabular aulas, que iria perseguir marmanjos cemitério adentro? Mas para os pequeninos era uma fonte inesgotável de histórias macabras que causavam calafrios a cada nova geração que naquele colégio adentrava.

A mais curiosa era da mulher de algodão, diziam os mais velhos, ano após ano, que a noiva, de pele branca como a neve fora ali enterrada em sono profundo mas ainda viva por um noivo não tão amoroso, ao cair da escura noite ela consegue se levantar de seu jazigo ainda com todos curativos de esparadrapo e algodão com que os mortos eram tratados e se dá conta do ocorrido, caindo em uma tristeza imensa.

Tamanha tristeza que a já a esta altura decadente e desfigurada noiva (ninguém jamais explicou o porquê do decadente e desfigurada), decidiu se retirar em sua vergonha para um dos banheiros da escola ao lado e desde então de vestido branco e muito algodão por todos os lados afasta quem ali se atreve a entrar.

Hoje sei que é uma história fajuta, cheia de buracos e inconsistências, mas em uma das peças que a mente prega reside um dos meus piores pesadelos, daqueles que teimam em se repetir vez por outra em noites mal dormidas, onde me vejo novamente naqueles corredores indo em direção ao nefasto banheiro, onde dizem estar até hoje a noiva amargurada… Credo.

O filósofo

Publicado: 12/08/2009 em Conto
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O pior de estar em um novo lugar é aquela sensação de ser um forasteiro no local onde sua vida está estacionada, você anda passa pelas ruas e sente como se soubessem que não é daquele local e isso parece trazer olhares desconfiados que só fazem aumentar a insegurança.

Este é um mal da vida moderna e dos locais onde a tal vida moderna está entranhada, mesmo em uma vila ainda provinciana como esta, onde não existe vida cultural a não ser pela ação de uns poucos obstinados, onde o comércio é um eco das mercadorias baratas que vem dos grandes centros e por aqui são vendidas a peso de ouro.

Em resumo sinto falta de fazer amizades simplesmente ao sentar em bar pra tomar uma cerveja, como daquela vez que em que conheci provavelmente o maior conhecedor da alma humana que já passou por esse mundo. A avenida estava cheia, os jovens ávidos por aventuras com o sexo oposto, alguns não procuravam o oposto, mas isso não vem ao caso, demonstravam posses e status como uma dança do acasalamento grupal.

Eu estava alheio a isso, na verdade olhava alguns rabos de saia, mas não seria naquela noite que me daria bem, não havia quem se encaixasse em meu perfil e nem estava disposto a gastar muito tempo de prosa fiada com as raparigas que por ali circulavam. Cheguei ao costumeiro balcão, o dono do bar já um amigo sabia exatamente meu pedido, após alguns cumprimentos sentei-me à uma mesa mais lateral para observar a noite e a agitação morna que ela trazia.

Quando ele perguntou se poderia sentar na cadeira vazia, trazia também sua própria cerveja. Naquele momento, naquele local nem cogitei qualquer maldade, coisa que fatalmente faria em qualquer outra localidade, mas não ali. O fato que ele discorria sobre temas desinteressantes e por vezes comentava sobre alguma formosa garota que passava, a barba não me permitia dizer sua idade, mas certamente se tratava de um quinquagenário.

As cervejas acabando, aquela conversa rasa sem fim, eu confesso que já me sentia incomodado com presença daquele senhor, quando ao se levantar ele disse a frase que passaria tempos em minha cabeça; disse ele:

“Nesta vida todos temos um jardim onde cultivamos nossas mais belas flores, por vezes plantas daninhas se sentirão no direito de invadir seu jardim matando suas flores, e por mais que doa tirar a vida dessas plantas é uma escolha necessária para resguardar a vida daquelas plantas que com tanto carinho você cultivou.”

Se levantou foi embora tropeçando, sem talvez se dar conta da grande verdade que acabava de me transmitir.