A demagogia brasileira ainda vai matar você

Publicado: 13/04/2010 em Opinião, Sem categoria
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A cada problema estrutural, a cada mazela social, em todas as feridas que se abatem sobre a população, ela sempre estará lá, pronta a explicar o inexplicável, justificar o injustificável, isentando de culpa os culpados e dissolvendo qualquer espírito de cobrança e luta por direitos, em uma calma e sufocante nuvem de conformismo e inaptidão.

É a demagogia, instituição serva da desculpa, auxiliar do descaso e companheira da incompetência pública nacional em simplesmente fazer o que é certo, punir quem deve ser punido, respeitar os direitos individuais de quem está correto, evitar que que condições não legítimas se perpetuem.

Exemplo? Há poucos anos o governo se sentiu incomodado com as mortes no trânsito (na verdade algum orgão internacional incomodou o governo). Diante disso poderia simplesmente aplicar a legislação vigente, com o já rígido código do trânsito nacional(sabia que no Japão não é nem necesário carteira para guiar diversos tipos de motoclicletas? e vejam os ídices de acidentes de transito na terra do sol nascente.). Poderiamos fazer cumprir a lei, mas não era necessário algo emblemático, algo impactante; então o governo colocou responsáveis e irresponsáveis todos no mesmo balaio, criou a lei seca, porque não era capaz de fazer cumprir a lei anterior, cerceou toda a sociedade com uma lei prática e de fácil execução, bebeu perdeu.

E no primeiro ano foi maravilhoso, índices de mortes no trânsito caindo, a publicidade estatal com estandartes comemorativos para adular a coragem governamental de tratar todos os irresponsáveis motoristas nacionais da mesma forma, como criminosos que são ao tomar dois copos de cerveja. O problema é que hoje os índices de acidentes de trânsito voltam a crescer, mas como assim Bial, se estamos todos sóbrios? Então a demagogia tem a resposta, imprudência, condições chuvosas, carros sem manutenção… Mas peraê, estradas mal conservadas e mal sinalizadas agora são problemas, e os caminhoneiros que fazem jornadas de trabalho de 24 horas também? E aquele código de trânsito maravilhoso que não está sendo aplicado? Não é inspecionado? Ao que tudo indica o problema é você e somente você que coloca seu carro nas ruas pronto a matar inocentes, seu irresponsável.

Poderia citar milhares de exemplos, desde a infindável guerra do tráfico aos problemas da saúde, passando pelo transporte público, pela carga tributária, pelos mensaleiros e políticos de cuecas cheia, pelos movimentos sociais que destroem plantações, todas as merdas coisas são devidamente explicáveis pela genial demagogia, não existe nada no mundo que não seja facilmente resolvido por esta ferramenta de persuasão, dane-se a razão e o racional, o discurso demagógico supera qualquer trauma.

Mas não poderia deixar de registrar a brilhante atuação desta arte do engodo que se agiganta perante tragédias como foram as torrenciais chuvas que assolaram o Rio de Janeiro na última semana. Esqueçam a impossibilidade técnica de se construir qualquer coisa em cima de um lixão, esqueçam também a afronta que isso seria a qualquer Plano Diretor Urbano, responsabilidade sócio ambiental também não se aplica. O que a exata ciência demagógica nos explica neste caso é a impossibilidade do poder público evitar que aquelas pessoas ali se instalassem haja visto a impopularidade qualquer ato neste sentido, na verdade era mais adequado promover a ocupação e com isto angariar simpatia e votos.

Bem votos foram realmente angariados, talvez tenham feito um vereador, ajudado um pouco na candidatura daquele deputado mequetrefe, mas o tempo passou, as chuvas vieram e com elas a cobrança de natureza por aquilo de errado que havia sido feito lá atrás, cobrança de forma cruel, impiedosa; mas esperada sob a ótica da mais rasa análise técnica que fosse feita da situação. Infelizmente análises e decisões técnicas não cabem no jeito nacional de promover crescimento, e agora resta acolher os sobreviventes, orar pelos que se foram e discursar de forma bonita e eloquente para jornais e revistas enquanto a poeira abaixa e a terra se assenta.

Não era melhor dizer anos atrás que não poderiam morar ali?

Será que algum dia haverá verdadeira coragem para se fazer o que é certo, na hora certa? Tomar atitudes impopulares mas que resguardem o futuro de cenas assim? Ou estaremos sempre esperando que o acaso, ou o clima ou seja lá o que for venha nos cobrar pelos erros cometidos?

Sei que discursos por mais belos, não irão recuperar os mais de 200 votos que foram enterrados no morro da Bumba na última semana.

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