O filósofo

Publicado: 12/08/2009 em Conto
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O pior de estar em um novo lugar é aquela sensação de ser um forasteiro no local onde sua vida está estacionada, você anda passa pelas ruas e sente como se soubessem que não é daquele local e isso parece trazer olhares desconfiados que só fazem aumentar a insegurança.

Este é um mal da vida moderna e dos locais onde a tal vida moderna está entranhada, mesmo em uma vila ainda provinciana como esta, onde não existe vida cultural a não ser pela ação de uns poucos obstinados, onde o comércio é um eco das mercadorias baratas que vem dos grandes centros e por aqui são vendidas a peso de ouro.

Em resumo sinto falta de fazer amizades simplesmente ao sentar em bar pra tomar uma cerveja, como daquela vez que em que conheci provavelmente o maior conhecedor da alma humana que já passou por esse mundo. A avenida estava cheia, os jovens ávidos por aventuras com o sexo oposto, alguns não procuravam o oposto, mas isso não vem ao caso, demonstravam posses e status como uma dança do acasalamento grupal.

Eu estava alheio a isso, na verdade olhava alguns rabos de saia, mas não seria naquela noite que me daria bem, não havia quem se encaixasse em meu perfil e nem estava disposto a gastar muito tempo de prosa fiada com as raparigas que por ali circulavam. Cheguei ao costumeiro balcão, o dono do bar já um amigo sabia exatamente meu pedido, após alguns cumprimentos sentei-me à uma mesa mais lateral para observar a noite e a agitação morna que ela trazia.

Quando ele perguntou se poderia sentar na cadeira vazia, trazia também sua própria cerveja. Naquele momento, naquele local nem cogitei qualquer maldade, coisa que fatalmente faria em qualquer outra localidade, mas não ali. O fato que ele discorria sobre temas desinteressantes e por vezes comentava sobre alguma formosa garota que passava, a barba não me permitia dizer sua idade, mas certamente se tratava de um quinquagenário.

As cervejas acabando, aquela conversa rasa sem fim, eu confesso que já me sentia incomodado com presença daquele senhor, quando ao se levantar ele disse a frase que passaria tempos em minha cabeça; disse ele:

“Nesta vida todos temos um jardim onde cultivamos nossas mais belas flores, por vezes plantas daninhas se sentirão no direito de invadir seu jardim matando suas flores, e por mais que doa tirar a vida dessas plantas é uma escolha necessária para resguardar a vida daquelas plantas que com tanto carinho você cultivou.”

Se levantou foi embora tropeçando, sem talvez se dar conta da grande verdade que acabava de me transmitir.

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